Saúde na Manchete

Retatrutida

Retatrutida emagreceu mais de 20% em novos estudos: o que já sabemos e o que ainda falta provar

Retatrutida superou 20% de perda de peso nos estudos TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3. Entenda os resultados, as limitações e por que ainda não está disponível.

“Doutor, a retatrutida emagrece mais que o Mounjaro? Já vale a pena usar?” Essa pergunta deve se tornar cada vez mais comum. Dois novos estudos de fase 3 divulgaram perdas médias de peso superiores a 20%, colocando novamente a retatrutida entre as moléculas mais comentadas no tratamento da obesidade. Os resultados são expressivos. Mas precisam ser interpretados com cuidado. Até o momento, os dados foram apresentados pela fabricante. Os artigos científicos completos ainda não foram publicados e revisados por outros pesquisadores. Além disso, a retatrutida continua experimental e não está aprovada para comercialização.

O que é a retatrutida?

A retatrutida é um medicamento experimental que atua simultaneamente em três receptores relacionados ao metabolismo: GLP-1, GIP e glucagon. Por isso, é chamada de agonista triplo.

De maneira simplificada, essa combinação procura reduzir o apetite, melhorar o controle da glicose e modificar o gasto e o metabolismo energético.

O mecanismo é interessante, mas não representa uma promessa automática de resultado. A resposta varia conforme organismo, alimentação, atividade física, doenças associadas, tolerabilidade e adesão ao tratamento.

O que mostrou o TRIUMPH-2?

O TRIUMPH-2 avaliou 1.152 pessoas com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2.

Após 80 semanas, a perda média de peso foi de 12,7% com 4 mg, 19,1% com 9 mg e 20,8% com 12 mg. No grupo placebo, foi de aproximadamente 4%. Também foi observada redução da hemoglobina glicada de até 1,6 ponto percentual.

Esse resultado chama atenção porque pessoas com diabetes tipo 2 costumam apresentar uma resposta de perda de peso menor do que participantes sem diabetes em estudos de medicamentos para obesidade.

Ainda assim, estamos falando de médias. Algumas pessoas perderam mais, outras menos e algumas podem não ter tolerado ou mantido o tratamento.

O que mostrou o TRIUMPH-3?

O TRIUMPH-3 incluiu 1.949 pessoas com obesidade grave e doença cardiovascular estabelecida.

A perda média de peso chegou a 22,6% em 80 semanas, enquanto o grupo placebo perdeu aproximadamente 3,2%. É um resultado relevante, especialmente por ter sido observado em uma população com maior complexidade clínica.

Mas o estudo não demonstrou, até agora, que a retatrutida protege o coração. Os dados cardiovasculares divulgados ainda não permitem concluir benefício nem dano.

Melhorar o peso e alguns marcadores metabólicos não equivale automaticamente a comprovar redução de infarto, AVC ou mortalidade.

Por que esses resultados são importantes?

Perdas médias superiores a 20% aproximam o tratamento medicamentoso de resultados que, até poucos anos atrás, eram difíceis de imaginar sem cirurgia bariátrica.

Isso pode ampliar as possibilidades futuras para pacientes com obesidade e doenças associadas. Porém, uma porcentagem alta na balança não responde a todas as perguntas importantes.

Ainda precisamos analisar quantas pessoas abandonaram o tratamento, a frequência e a intensidade dos efeitos adversos, quanto da perda foi de gordura ou massa magra, a segurança cardiovascular, a manutenção dos resultados e a segurança após vários anos de uso.

Os efeitos adversos divulgados foram predominantemente gastrointestinais, como náusea, diarreia e vômitos. A avaliação real da tolerabilidade dependerá da análise completa dos estudos.

Retatrutida é melhor que Mounjaro?

Ainda não podemos afirmar isso.

Mounjaro contém tirzepatida, que atua nos receptores de GIP e GLP-1. A retatrutida acrescenta a ação sobre o receptor de glucagon.

Apesar do mecanismo triplo e dos percentuais expressivos, o TRIUMPH-2 e o TRIUMPH-3 não compararam diretamente retatrutida e tirzepatida nas mesmas condições.

Comparar percentuais de estudos diferentes pode levar a conclusões erradas, porque mudam a população, a duração, as doses e a forma de analisar os resultados.

A retatrutida parece promissora. Isso é diferente de dizer que já demonstrou superioridade sobre o Mounjaro.

A retatrutida já está disponível no Brasil?

Não. A retatrutida ainda não está aprovada para comercialização e não existe uma versão “manipulada” oficialmente autorizada.

Produtos anunciados atualmente como retatrutida, fora de estudos clínicos, não possuem garantia confiável de identidade, concentração, pureza, esterilidade, conservação ou procedência.

Em alguns casos, nem sequer é possível confirmar se o frasco contém a substância anunciada.

A Anvisa já adotou medidas contra produtos irregulares vendidos como retatrutida. Comprar uma substância experimental pela internet não equivale a participar de uma pesquisa clínica.

Em resumo

A retatrutida apresentou perdas médias superiores a 20% nos estudos TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3.

Os números são promissores, mas os artigos completos ainda precisam ser publicados e revisados. Também não está provado que ela seja superior ao Mounjaro ou que ofereça proteção cardiovascular.

E o ponto mais importante: a retatrutida continua experimental e não está aprovada para venda no Brasil.

Ciência exige entusiasmo para avançar — e prudência para não avançar rápido demais.

A VISÃO DO DR. IAGO

Eu entendo a empolgação em torno da retatrutida. Os resultados são realmente expressivos.

Mas uma molécula promissora ainda não é o mesmo que um medicamento aprovado, produzido com controle de qualidade e acompanhado por dados de segurança mais completos.

No consultório, não faz sentido abandonar um tratamento regulamentado, seguro e que está funcionando para buscar uma substância experimental comprada sem procedência.

Tratar obesidade não é disputar a maior porcentagem de perda de peso. É equilibrar eficácia, segurança, tolerabilidade, preservação de massa muscular e capacidade de manter o tratamento.

REFERÊNCIAS

  1. Eli Lilly — Resultados dos estudos de fase 3 TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3
  2. ClinicalTrials.gov — TRIUMPH-2
  3. ClinicalTrials.gov — TRIUMPH-3
  4. Anvisa — Combate ao comércio ilegal de medicamentos para emagrecimento
Dr. Iago Doun

AUTORIA E REVISÃO MÉDICA

Dr. Iago DounMédico • CRM-SP 223567
Pós-graduado em Nutrologia Esportiva
Uma observação importante

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica. Indicação, dose e acompanhamento de qualquer tratamento devem ser individualizados.

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