Você começou a usar Mounjaro, percebeu uma diminuição importante da fome e talvez até já esteja perdendo peso. Mas, junto com esses efeitos, surgiu um cansaço que antes não existia. Sem vontade de trabalhar, sem vontade de treinar e sem vontade de fazer nada. Nesse momento, é natural pensar: será que é culpa da caneta? A resposta curta é: pode estar relacionado, mas nem sempre o medicamento é a única causa.
O cansaço pode estar relacionado à tirzepatida?
A fadiga aparece entre as reações adversas observadas nos estudos de tirzepatida para controle do peso. Nos ensaios citados nas informações oficiais americanas, ela foi relatada por aproximadamente 5% a 7% das pessoas que receberam tirzepatida, dependendo da dose, contra 3% no grupo placebo. Nesse grupo de sintomas também foram incluídos fraqueza, letargia e mal-estar.
Entretanto, na prática, existem diferentes explicações possíveis.
1. Você pode estar comendo menos do que o organismo necessita
A tirzepatida reduz o apetite e pode fazer a pessoa passar várias horas sem sentir fome. Isso ajuda no emagrecimento, mas também pode levar a uma redução exagerada da alimentação. E lembre-se: comida é energia para o nosso corpo. Quando a redução da alimentação é exagerada, é natural que a disposição também diminua.
Algumas pessoas deixam de fazer refeições, consomem pouca proteína ou passam o dia com uma ingestão calórica muito baixa. Nesse caso, o corpo pode não estar recebendo energia suficiente para manter a rotina habitual.
O objetivo do tratamento não é fazer a pessoa parar de comer. É permitir uma alimentação mais organizada, com maior controle da fome e das porções.
2. Desidratação também pode provocar fraqueza
Náusea, vômitos e diarreia são efeitos gastrointestinais possíveis durante o tratamento, especialmente no início ou durante o aumento gradual da dose.
Quando esses sintomas aparecem, a pessoa pode perder líquidos e, ao mesmo tempo, diminuir o consumo de água. A desidratação pode causar cansaço, tontura, dor de cabeça, queda de pressão e sensação de fraqueza.
As informações oficiais também alertam para o risco de problemas renais relacionados à perda de líquidos quando os sintomas gastrointestinais são intensos ou persistentes.
3. Pode existir hipoglicemia?
A hipoglicemia é uma possibilidade, mas o risco não é igual para todos. Ela merece atenção principalmente nas pessoas com diabetes que utilizam tirzepatida junto com insulina ou medicamentos que aumentam a liberação de insulina, como as sulfonilureias.
Nesses casos, fraqueza, suor frio, tremores, palpitação, tontura, confusão ou sonolência precisam ser avaliados. A associação com outros medicamentos para diabetes pode exigir ajustes feitos pelo profissional responsável pelo tratamento.
Isso não significa que todo cansaço durante o uso de Mounjaro seja hipoglicemia.
4. A alimentação pode ter ficado pobre em proteína e nutrientes
Com a diminuição da fome, algumas pessoas passam a comer apenas aquilo que “desce mais fácil”. O problema é que essa alimentação pode se tornar pouco nutritiva.
Uma ingestão inadequada de proteína e de outros nutrientes pode prejudicar a disposição, a recuperação muscular e a preservação da massa magra.
A quantidade ideal de proteína varia conforme peso, idade, condição de saúde, nível de atividade física e estratégia de tratamento. Por isso, não existe uma recomendação única que sirva para todo mundo. Esse assunto, inclusive, merece um texto próprio aqui no blog.
5. O organismo pode estar se adaptando ao tratamento
Os efeitos gastrointestinais da tirzepatida costumam aparecer com maior frequência durante o período de aumento das doses. Nos estudos, muitos episódios de náusea, vômito e diarreia diminuíram com o passar do tempo.
Isso não quer dizer que o paciente deva simplesmente suportar sintomas importantes. A intensidade, a duração e o impacto deles na rotina precisam ser avaliados individualmente.
Não aumente, diminua ou interrompa a dose por conta própria.
6. Nem todo cansaço é causado pelo Mounjaro
Esse é um ponto muito importante. Anemia, alterações da tireoide, deficiência de vitaminas, infecções, apneia do sono, noites mal dormidas, estresse, ansiedade, depressão e outros medicamentos também podem provocar fadiga.
Às vezes, o início do cansaço coincide com o começo da tirzepatida, mas a verdadeira explicação está em outro problema. Por isso, atribuir automaticamente todos os sintomas à caneta pode atrasar um diagnóstico que precisa de atenção.
O que fazer se o Mounjaro estiver dando cansaço?
O primeiro passo é observar o contexto. Essas informações ajudam o médico a entender se o sintoma pode estar relacionado à alimentação, à hidratação, à dose utilizada ou a outra condição de saúde.
Dependendo do caso, pode ser necessário rever a estratégia alimentar, os demais medicamentos e solicitar exames.
- O sintoma começou depois do início do tratamento ou do aumento da dose?
- Você está conseguindo se alimentar adequadamente?
- Está bebendo água?
- Apresentou vômitos ou diarreia?
- Utiliza insulina ou outro medicamento para diabetes?
- O cansaço está melhorando ou ficando cada vez mais intenso?
Quando procurar atendimento rapidamente?
Procure avaliação médica com maior urgência se o cansaço estiver acompanhado de:
- desmaio ou confusão;
- dificuldade para permanecer acordado;
- vômitos ou diarreia persistentes;
- incapacidade de ingerir água;
- falta de ar ou dor no peito;
- dor abdominal forte e contínua;
- redução importante da urina;
- sinais de hipoglicemia;
- piora rápida do estado geral.
Em resumo
Mounjaro pode estar associado ao cansaço, mas existem várias explicações possíveis: alimentação insuficiente, desidratação, efeitos gastrointestinais, hipoglicemia em situações específicas ou até um problema sem relação direta com a medicação.
O tratamento da obesidade não deve ser resumido à aplicação de uma caneta. Acompanhamento, alimentação adequada, preservação de massa muscular e investigação dos sintomas fazem parte do processo.
A VISÃO DO DR. IAGO
No meu consultório, é muito comum o paciente relatar mais cansaço e indisposição no início do tratamento.
Na maioria das vezes, isso acontece por causa de uma mudança brusca na alimentação provocada pela redução do apetite. Antes da medicação, a pessoa consumia uma quantidade maior de alimentos, incluindo carboidratos, gorduras e proteínas. Com o início do tratamento, algumas pessoas reduzem tanto as porções ou a frequência das refeições que deixam de consumir a energia e os nutrientes necessários para manter a disposição ao longo do dia.
O resultado pode ser um organismo com pouca energia disponível para trabalhar, treinar e realizar as atividades do cotidiano. Na maior parte dos casos, essa indisposição melhora quando conseguimos organizar uma alimentação equilibrada e uma hidratação adequada.
Minha principal orientação é: não pare de comer. Eu sei que muitas pessoas começam o tratamento buscando um emagrecimento rápido. Porém, mais importante do que simplesmente perder peso é emagrecer com qualidade.
Equilíbrio é a palavra-chave. Uma boa alimentação, atividade física e, quando indicada, suplementação podem tornar o processo mais saudável e ajudar a preservar massa muscular, disposição e qualidade de vida.
Evite refeições muito gordurosas, jejuns muito prolongados e substituir várias refeições por whey protein. O whey pode complementar a ingestão de proteína quando existe indicação, mas não deve virar automaticamente o substituto de uma alimentação completa.
REFERÊNCIAS
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica. Indicação, dose e acompanhamento de qualquer tratamento devem ser individualizados.

