Você começa o tratamento, percebe a fome diminuir e vê o peso finalmente baixar. Até que, algumas semanas ou meses depois, surge uma nova preocupação: mais fios no banho, no travesseiro, na escova e espalhados pela casa. Nesse momento, é natural pensar: será que o Mounjaro está fazendo meu cabelo cair? Essa dúvida é cada vez mais comum entre pessoas que utilizam tirzepatida, semaglutida e outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1. Um novo estudo publicado no The BMJ encontrou uma associação entre o uso desses medicamentos e um risco maior de alopecia. Mas os números precisam ser interpretados com cuidado.
O que o novo estudo do BMJ investigou?
O estudo, publicado em julho de 2026, analisou dados de prontuários eletrônicos de adultos com diabetes tipo 2 atendidos pelo sistema Penn Medicine, nos Estados Unidos.
Os pesquisadores compararam pessoas que iniciaram o tratamento com agonistas de GLP-1 com pacientes que utilizaram outras classes de medicamentos para diabetes, como os inibidores de SGLT-2 e os inibidores de DPP-4. Entre os medicamentos da classe GLP-1 estavam semaglutida, tirzepatida e fármacos mais antigos.
Após os ajustes estatísticos, os agonistas de GLP-1 foram associados a um risco relativo 37% maior de alopecia em comparação aos inibidores de SGLT-2 e 68% maior em comparação aos inibidores de DPP-4.
A alopecia não cicatricial, na qual o folículo não é destruído permanentemente e existe possibilidade de recuperação dos fios, foi a forma que mais apareceu nos registros. Os resultados podem parecer assustadores quando apresentados apenas em porcentagens. Porém, existe uma diferença fundamental entre risco relativo e risco absoluto.
- risco relativo 37% maior em comparação aos inibidores de SGLT-2;
- risco relativo 68% maior em comparação aos inibidores de DPP-4;
- predomínio de alopecia não cicatricial.
“Risco 68% maior” não significa que 68% das pessoas perderão cabelo
Esse é o ponto mais importante do estudo. Quando uma manchete afirma que determinado medicamento aumentou o risco de queda de cabelo em 68%, muita gente entende que 68 em cada 100 usuários apresentarão o problema. Não foi isso que o estudo encontrou.
O número de diagnósticos de alopecia permaneceu baixo, variando aproximadamente entre 3 e 9 casos para cada mil pessoas acompanhadas durante um ano, dependendo do grupo e da comparação realizada.
Imagine, de maneira simplificada, que um problema aconteça em cinco pessoas a cada mil. Se, em outro grupo, ele acontecer em oito pessoas a cada mil, houve um aumento relativo importante. Mas, em números absolutos, continuamos falando de poucos casos adicionais para cada mil pessoas.
O risco relativo mostra o tamanho da diferença proporcional entre dois grupos. O risco absoluto mostra quantas pessoas realmente apresentaram o problema. Os dois números são importantes. Apresentar apenas a porcentagem maior, sem mostrar a frequência real do evento, pode gerar um medo desproporcional.
O estudo prova que Mounjaro e Ozempic causam queda de cabelo?
Não. O estudo mostra uma associação, mas não consegue provar uma relação direta de causa e efeito. Isso significa que a queda de cabelo apareceu com maior frequência entre os usuários de agonistas de GLP-1, mas ainda não sabemos exatamente por quê.
O trabalho foi observacional e utilizou dados de prontuários, que podem conter registros incompletos. A população era formada por adultos com diabetes tipo 2, portanto os resultados não podem ser aplicados automaticamente a todas as pessoas que utilizam essas medicações para obesidade. Além disso, diferentes medicamentos da classe foram analisados em conjunto.
Mesmo com ajustes estatísticos, não é possível eliminar totalmente diferenças relacionadas à alimentação, velocidade do emagrecimento, doenças preexistentes, alterações hormonais, uso de outros medicamentos e predisposição individual.
Portanto, a interpretação mais fiel ao estudo seria: o uso de agonistas de GLP-1 foi associado a uma frequência discretamente maior de alopecia em adultos com diabetes tipo 2, mas o estudo não comprova que a medicação seja a causa direta.
Por que o cabelo pode cair durante o emagrecimento?
Nem toda queda de cabelo que surge durante o tratamento é provocada diretamente pela caneta. O emagrecimento produz diversas mudanças no organismo, especialmente quando acontece de maneira rápida ou acompanhado de uma redução exagerada da alimentação.
Algumas explicações precisam ser consideradas.
1. Emagrecimento muito rápido
Uma perda importante de peso em pouco tempo pode ser interpretada pelo organismo como um período de estresse fisiológico. Nessa situação, funções essenciais recebem prioridade. O crescimento dos fios, que não é indispensável para a sobrevivência imediata, pode temporariamente perder espaço.
O cabelo também não costuma cair no mesmo dia em que o estímulo acontece. A alteração pode surgir dois ou três meses depois, o que dificulta a identificação da causa. Por isso, algumas pessoas só percebem a queda quando já perderam uma quantidade considerável de peso.
2. Baixa ingestão de proteína
A redução do apetite pode fazer a pessoa consumir porções menores e passar muitas horas sem comer. O problema é que, em alguns casos, não existe apenas uma redução das calorias. A alimentação também pode se tornar pobre em proteínas, vitaminas, minerais e gorduras essenciais.
O fio de cabelo é formado principalmente por queratina, uma proteína. Isso não significa que toda queda seja causada por falta de proteína, mas uma ingestão inadequada pode contribuir, especialmente quando associada a restrição calórica importante.
O objetivo do tratamento não deve ser fazer o paciente parar de comer. É reduzir a fome e facilitar uma alimentação mais organizada.
3. Deficiência de ferro
O ferro participa de processos importantes para o crescimento dos cabelos. Baixos níveis de ferro ou de ferritina podem estar associados à queda, principalmente em pessoas que já apresentavam estoques reduzidos antes do emagrecimento.
Mulheres com fluxo menstrual intenso, pessoas com dietas muito restritivas, pacientes com alterações gastrointestinais e indivíduos que já possuíam anemia merecem atenção especial.
Ainda assim, isso não significa que toda pessoa com queda de cabelo precise tomar ferro. A suplementação sem indicação pode ser desnecessária e até prejudicial.
4. Alterações da tireoide
Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem provocar mudanças no ciclo capilar. Cansaço, alterações de peso, constipação, palpitações, intolerância ao frio ou ao calor e mudanças na pele podem ajudar a levantar essa suspeita, mas os sintomas isolados não estabelecem o diagnóstico.
Às vezes, o início do tratamento coincide com uma alteração tireoidiana que já estava se desenvolvendo. Culpar automaticamente a medicação pode atrasar a investigação da verdadeira causa.
5. Eflúvio telógeno
O eflúvio telógeno é uma das explicações mais frequentes para a queda difusa após emagrecimento acelerado, doenças, cirurgias, estresse emocional ou mudanças alimentares importantes.
Normalmente, uma parte dos cabelos está crescendo enquanto outra pequena parcela está em repouso. Diante de um estresse relevante, um número maior de fios pode entrar antecipadamente na fase de repouso. Meses depois, esses fios se desprendem.
A pessoa percebe uma queda espalhada por todo o couro cabeludo, principalmente durante o banho ou ao pentear o cabelo.
Em muitos casos, o folículo permanece preservado e o crescimento pode se recuperar quando o fator desencadeante é identificado e corrigido. Entretanto, nem toda alopecia é eflúvio telógeno e outras causas precisam ser descartadas.
A queda pode ser causada diretamente pelo medicamento?
Essa possibilidade ainda não está esclarecida. O emagrecimento rápido e a redução da ingestão alimentar são explicações plausíveis, mas talvez não contem toda a história.
O novo estudo encontrou uma associação mesmo após ajustes para diferentes características dos pacientes. Outros trabalhos também vêm identificando sinais de queda capilar em usuários dessa classe.
Isso levanta a hipótese de que possam existir mecanismos ainda desconhecidos relacionados à medicação, ao metabolismo, às alterações hormonais ou ao próprio ciclo do folículo. Por enquanto, porém, não existe evidência suficiente para afirmar que semaglutida ou tirzepatida ataquem diretamente os folículos capilares.
O que fazer se o cabelo começar a cair?
O primeiro passo é não entrar em pânico e não interromper a medicação por conta própria. A avaliação deve considerar todo o contexto.
O couro cabeludo e o padrão da queda também precisam ser examinados. Dependendo da história e da avaliação clínica, o profissional pode considerar exames como hemograma, marcadores do metabolismo do ferro e função tireoidiana, além de outras investigações individualizadas.
Não existe uma lista universal de exames que sirva para todas as pessoas.
- quando a queda começou;
- se ela é difusa ou localizada;
- quanto peso foi perdido e em quanto tempo;
- como está a alimentação e a ingestão de proteínas;
- presença de alterações menstruais;
- histórico de anemia ou doença tireoidiana;
- cirurgias, infecções ou estresse recente;
- uso de outras medicações;
- histórico familiar de alopecia.
Devo tomar biotina, ferro, zinco ou vitaminas?
Não de forma automática. Quando o cabelo começa a cair, é comum surgir uma sequência de suplementos indicados por amigos, vídeos e propagandas. Mas suplementar sem saber se existe deficiência pode não resolver o problema.
Ferro, zinco, vitamina B12, vitamina D e outros nutrientes podem ser investigados quando houver indicação clínica. A reposição deve ser direcionada ao que realmente estiver inadequado.
Doses elevadas de biotina, por exemplo, também podem interferir em determinados exames laboratoriais. Mais suplemento não significa, necessariamente, mais cabelo.
É necessário parar o Mounjaro ou o Ozempic?
A queda de cabelo não significa automaticamente que o tratamento precise ser interrompido. A decisão depende da intensidade do sintoma, do tipo de alopecia, da velocidade do emagrecimento, das possíveis deficiências, dos benefícios obtidos e do impacto emocional para o paciente.
Em alguns casos, organizar a alimentação, rever a velocidade da perda de peso e tratar uma causa associada pode ser suficiente. Mudanças na dose ou na estratégia terapêutica devem ser discutidas com o profissional responsável.
Quando procurar avaliação com mais rapidez?
Procure atendimento se houver:
- falhas localizadas ou áreas bem delimitadas sem cabelo;
- coceira intensa, descamação, dor ou inflamação no couro cabeludo;
- formação de cicatrizes;
- perda de sobrancelhas ou cílios;
- queda muito intensa e progressiva;
- sinais de anemia;
- sintomas sugestivos de alterações hormonais;
- alimentação extremamente reduzida;
- impacto emocional importante.
Em resumo
O novo estudo publicado no The BMJ encontrou uma associação entre agonistas de GLP-1 e maior risco relativo de alopecia em adultos com diabetes tipo 2. Apesar disso, o risco absoluto permaneceu baixo, o estudo não prova causalidade, os medicamentos foram analisados como classe e os dados não devem ser extrapolados automaticamente para todos os usuários.
Emagrecimento rápido, baixa ingestão proteica, deficiência de ferro, alterações tireoidianas e eflúvio telógeno são explicações possíveis.
Se o cabelo começar a cair durante o tratamento, não interrompa a medicação nem inicie suplementos por conta própria. O melhor caminho é avaliar o padrão da queda, a velocidade do emagrecimento, a alimentação e outras possíveis causas.
Porque tratar obesidade não é apenas fazer o peso diminuir. É cuidar da pessoa inteira durante o processo.
A VISÃO DO DR. IAGO
Na prática, nem sempre a primeira pergunta deve ser: “Qual suplemento vamos usar?” Antes disso, precisamos entender como foi o processo de emagrecimento.
O paciente está perdendo peso rápido demais? Está conseguindo consumir proteínas? Parou de fazer refeições? Já apresentava alterações de ferro ou tireoide? Passou recentemente por um período de estresse, infecção ou cirurgia?
É muito comum que, com a redução intensa da fome, a pessoa diminua não apenas os alimentos que comia em excesso, mas também aquilo que o organismo precisa para funcionar bem. O objetivo do tratamento não é trocar obesidade por desnutrição.
A queda de cabelo precisa ser acolhida, porque pode afetar autoestima, confiança e até a adesão ao tratamento. Mas também precisa ser investigada com calma, sem culpar automaticamente a medicação e sem prescrever uma coleção de suplementos no escuro.
Emagrecer com qualidade significa perder gordura preservando saúde, músculos, disposição e, sempre que possível, a integridade dos cabelos.
REFERÊNCIAS
- Tang H et al. — Risk of hair loss associated with GLP-1 receptor agonists in adults with type 2 diabetes ↗
- BMJ Group — GLP-1 diabetes drugs linked to increased risk of hair loss ↗
- American Academy of Dermatology — GLP-1 drugs: skin, hair and nail effects ↗
- Reuters — Hair loss with GLP-1 drugs is rare, but real, studies find ↗
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica. Indicação, dose e acompanhamento de qualquer tratamento devem ser individualizados.

